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Treinamentos ao ar livre são programa de índio?

 

Com sede em Chicago, a consultoria Aon entrou no Brasil por meio de aquisições de pequenas

corretoras de seguros, até chegar ao porte atual, com 1200 funcionários espalhados em 13 filiais no país.

Devido às aquisições, a área de recursos humanos da companhia planejou uma série de atividades

para integrar os funcionários que vinham de culturas diferentes. Lançou mão do famoso

TEAL – Treinamento Experiencial ao Ar Livre, promovendo uma caminhada-rali pelo meio da mata.

Em 2007, a pedida era uma regata em Ilhabela, no litoral de São Paulo. Mas o plano não deu

certo. “Na hora, o tempo virou”, diz a diretora de RH da Aon, Nancy Bartos. “Foi então que percebi

que nossos funcionários estavam expostos a risco, porque a empresa contratada para desenvolver

a atividade tinha velejadores profissionais mas que não estavam preparados para lidar com o grupo

em uma situação de crise e não sabiam transmitir, com tranquilidade, o que estava

ocorrendo.” No final, não aconteceu nada de pior. Mas poderia.

 

Por esse motivo, Nancy desistiu para sempre desse tipo de atividade. “Além do risco, o funcionário

não vai levar nada daquilo para o seu dia a dia profissional, não dá para considerar a

atividade como um treinamento.”

Um modismo que ganhou força no Brasil no início do século 21, os treinamentos realizados

quase sempre ao ar livre e vendidos como experiências para ensinar profissionais a superar

desafios e metas ainda hoje encontram adeptos nas empresas. O que está longe, porém, de

significar que sejam eficazes. Mesmo entre aqueles que adotam o método, há restrições.

“O problema não é o TEAL, é o que fizeram com o TEAL, introduzindo técnicas de guerrilha.

Já vi casos de deixar os profissionais sem beber água e fazê-los passar por cercas elétricas, e não

sei que benefício isso traz”, diz Hercoles Greco, superintendente de RH do Grupo COI, a maior rede

privada de oncologia do Brasil, que tem cerca de 300 funcionários.

Greco até gosta de atividades como rapel — desde que o objetivo seja apenas a integração do

time e que se pergunte antes ao profissional se ele quer participar. “Há um mês promovemos

atividades ao ar livre para a área financeira, que tinha problemas de relacionamento e, hoje, o

clima por lá é outro, bem diferente. Acredito que o TEAL vale para reforçar a confiança nas

relações e favorecer a interdependência entre as áreas”, diz o superintendente.

Segundo os especialistas, se a ideia for integrar o time, o TEAL pode servir. Mas, se o objetivo

for resolver problemas complexos ou aumentar a produtividade da equipe, esqueça. Afinal, você

não vai conseguir medir em hipótese alguma o retorno desse treinamento. “Se a companhia fizer

um levantamento das suas necessidades, vai perceber que os treinamentos outdoor estão muito

longe de cumprir a promessa.

Uma coisa é rastejar ou pular de uma árvore, outra são as habilidades que o profissional precisa

ter no cargo que ocupa”, diz Marcos Simões, sócio da consultoria RH Fácil, para

quem o TEAL tem um apelo de marketing muito forte e grande entrada em empresas

que não trabalham com indicadores de resultados para seus treinamentos.

Mesmo quando a meta da empresa for apenas promover a integração, Simões alerta que

é preciso tomar cuidado para não correr um risco legal, caso imponha ao funcionário a

 

obrigatoriedade de participar de atividades com as quais ele não se sinta

confortável — ou simplesmente não queira. Foi o que aconteceu recentemente com a Ambev.

Em setembro, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) manteve a condenação do

Tribunal Regional do Trabalho (TRT) do Paraná à cervejaria, por “assédio moral

decorrente de constrangimento” ao promover atividades de motivação para a equipe

de vendas com garotas de programa. Como resultado, a Ambev terá de

pagar 50 000 reais ao ex-funcionário Elcio Milczwski.

Bullying corporativo

A inclusão de garotas de programa não é o único caso estranho de treinamento.

Marcelo Cuellar, headhunter da Michael Page, já viu muita coisa — no mínimo — diferente por aí.

“Há empresas que encenam a história das Cruzadas, com artistas carregando tochas acesas,

como num show. Há outras que recriam a tumba de Tutancâmon, com toda uma

cenografia”, afirma Cuellar, que já participou de um treinamento com especialista falando

da cultura indígena. “Achei bizarro e ruim. Se não houver conexão com a cultura da

empresa, não funciona. Como pode alguém que morou com índios na Amazônia falar

para executivos do mundo financeiro? Eles até podem achar interessante, mas não farão a

conexão disso com sua realidade”, diz ele.

A ausência de uma ligação entre o exercício e a realidade é o principal pecado desses

treinamentos. A palestra de um ex-policial do Bope, por exemplo, só vai funcionar

se for feito um paralelo com a equipe e o negócio da empresa.

 

 

 

Todo treinamento tem de estar adaptado à realidade e ao objetivo da empresa, aoresultado que ela pretende alcançar”, diz Milta Rocha, consultora organizacional ecoach da consultoria que leva seu nome, de Belo Horizonte. Milta atende o Senac

de Minas Gerais e realiza um evento chamado Gourmet Gerencial , que leva os executivos

para a cozinha. “Faço isso porque, no estado de Minas, o Senac é referência em gastronomia.

Ou seja, é algo que está dentro da cultura da empresa, alinhado ao negócio”, diz ela.

Mais do que se certificar de que um bom treinamento tem de estar totalmente

relacionado ao negócio (e oferecer indicadores para medir seu impacto na prática), a

área de recursos humanos precisa saber que nem todos os funcionários estão

dispostos a participar de determinadas atividades.

Mesmo quando o plano for apenas a união do time, para determinado público a ação

pode ter efeito contrário. Na opinião de Cuellar, os profissionais de ciências exatas e

de vendas, principalmente, não entendem o que o RH pretende com essas iniciativas.

“No rafting, por exemplo, tem a pessoa que é responsável por dar a direção do bote. Se ela

não consegue acertar, todo mundo critica. Daí você coloca outra pessoa no lugar dela, que

constata o quanto é difícil a tarefa. Mas chega a segunda-feira e todo mundo volta a xingar

o profissional de TI. Houve o rafting, mas não houve a mudança. Sem falar que muita gente

tem medo de água ou não quer se expor com roupa de banho na frente dos

colegas de trabalho”, diz Cuellar.

E esse último detalhe pode gerar um sério problema para a empresa. Para Milta Rocha,

as provas ao ar livre podem tachar o profissional de inseguro e medroso. O funcionário

não consegue passar o bastão, não dá conta do remo ou não consegue puxar a corda, e a

equipe perde. Resultado: bullying corporativo. “O TEAL é restritivo, não envolve todas

as pessoas. Que proveito há nessas atividades para quem não tem preparo físico ou

simplesmente não gosta?”, questiona Milta. “Qualquer treinamento precisa respeitar as diferenças.”

Modismos e mitos

Apesar de a área de RH ser cada vez mais pressionada a realizar projetos que tragam

resultados mensuráveis, a demanda por esse tipo de treinamento ainda é alta. Tatiana

Vidal, fundadora da GoAhead Consultoria e Treinamento, diz que chega a perder

negócios, já que existem empresas que buscam só esse tipo de programa.

A GoAhead não faz. Nem para treinar força de vendas, que é um de seus principais públicos.

“É o mito de que as chamadas experiências fora da caixa vão fazer o profissional mudar e

começar a trabalhar de forma diferente. Mas dormir em barraca não muda o modelo

mental de ninguém”, diz Tatiana. “O pulo do gato de um treinamento está em como transformar

o conhecimento adquirido em formas melhores de executar suas atividades no cotidiano.”

A diretora de RH da Radix Engenharia e Software, Mônica Paiva, que já promoveu muitos

treinamentos ao ar livre, também admite que muitas vezes o método é mal usado pelo

próprio RH. “Esse tipo de treinamento só vai ser eficaz quando o gestor entender que o propósito são a

integração e o relacionamento da equipe e estiver disposto a mudar o próprio comportamento”, diz ela.

Mesma opinião do diretor de RH da Meritor América do Sul, Roberto Lui: “Sem estarem atrelados

a programas estruturados e de maior escopo, os treinamentos vivenciais tendem a ter um efeito temporário

ou reduzido”, afirma. Nesse caso, correm o risco de virar o entretenimento pelo entretenimento. E de a

área de RH ser ainda tachada como aquela que leva todo mundo para abraçar árvore.

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